
Larissa Soares Priebe - 20/03/2020
Educação Infantil no período pandêmico:
Após ler alguns textos da internet, analisar algumas propostas de retornos, opiniões sobre tipos de atividades que poderiam ser enviadas como tarefas escolares, cuidados sobre um possível retorno e as vantagens e desvantagens de estudar em casa, busquei refletir inicialmente sobre o texto de Débora Galofaro que está no site www.uol.com.br cujo título é: Educação Infantil: o cuidado com as atividades no período de pandemia.
Este texto reforça a importância da realização de atividades escolares planejadas por um professor de Educação Infantil incentivando e valorizando as rotinas. Porém, é preciso recordar que essa tarefa seria agregada a rotina da família que já pode estar sofrendo uma alteração, como por exemplo, o horário de trabalho diferenciado e até mesmo a execução do trabalho em casa, o que se torna muitas vezes difícil devido a faixa etária da criança que exige atenção e compreensão.
Nessa fase, a criança encontra-se em desenvolvimento e precisa de atividades específicas para que isso aconteça de forma qualitativa. Por isso, considero as reflexões de Galorafo muito importantes quando cita a relevância da rotina. É preciso pensar uma organização em família para que a criança não fique ansiosa durante a realização de tarefas. Sendo assim, a família deve compreender que é necessário dedicar um momento para a criança, apoiando e incentivando a mesma durante a execução das atividades.
Nesse sentido, Galorafo relata em seu texto algumas atividades simples que, talvez aos olhos de um familiar não têm a mesma visão de um profissional. São práticas de serem realizadas, e mesmo assim, desenvolvem inúmeras habilidades da criança. Como a leitura de um livro, por exemplo, demanda alguns minutos, mas com questionamentos orientados propicia a criança desenvolver sua compreensão e senso crítico.
A orientação à família prestada pelo professor é um ponto importante para ambos. Nem todos os pais tem conhecimento sobre as atividades de acordo com a faixa etária e orientações corretas para condução das mesmas.
Galorafo relata também a importância da avaliação dos pais referentes às atividades enviadas e realizadas. Considero esta, a peça chave para o bom desempenho de atividades remotas, pois nesse momento os pais são os “olhos e ouvidos” do professor. E através dessa prática, é possível observar o proveito da atividade, o que a criança precisa desenvolver o que torna as atividades prazerosas ou o que é preciso para que a mesma tenha gosto na execução das mesmas.
Para esse período é imprescindível à parceria entre família e professor. A empatia é algo que deve estar sobre qualquer atividade prática e de ação, pois todos estão se readaptando e se reinventando. Para algumas pessoas, este período pode estar sendo mais difícil que para outros, por isso, cabe a ambos colocarem-se um no lugar do outro, tentando ter outra visão e se for preciso, se reinventar novamente.
Um possível retorno presencial às instituições de Educação Infantil:
O cenário pandêmico está cada dia mais preocupante, trazendo reflexões a vários aspectos referentes à escola. Após um pronunciamento do Governador Eduardo Leite, a comunidade, gestores, professores começaram a se pronunciar nas redes sociais manifestando suas opiniões a respeito do assunto. Além disso, a mídia vem fazendo importantes pesquisas respectivas ao retorno escolar.
Muitos municípios do Rio Grande do Sul se mostram contra o retorno presencial das atividades. Para ser mais exata, uma pesquisa do site www.g1.globo.com, indicou que 94% dos prefeitos se mostram contra as propostas de retorno. Entre estes, 54% veem problemas e impossibilidade de segurança nos transportes, 44% dizem ter dificuldades na contratação de mais servidores, 33% sentem necessidade de EPis e 30 % não concordam com o retorno devido ao números de positivados por covid-19 em seus municípios. A pesquisa ainda indica que, 40% dos prefeitos opinam dizendo que as aulas presenciais só devem ocorrer quando tivermos vacinas, 35% acham que deve voltar após os casos diminuírem de forma significativa e 56% defendem a volta somente em 2021.
Este mesmo site cita que o Governador Eduardo Leite se pronunciou dizendo que essa seria apenas uma proposta, pois dessa forma, atenderia os pais que precisam trabalhar e deixar as crianças em um lugar seguro. Com essa afirmação do Governador, é preciso refletir se a escola realmente pode ser considerada um lugar seguro e se está preparada para este retorno com equipamentos que garantam a segurança e a aprendizagem significativa.
É notável que muitas escolas particulares de educação infantil precisaram fechar as portas neste período de pandemia. Entre as razões de desmatrículas nesta faixa etária está o não contentamento dos pais em relação ao ensino remoto.
Um grande número de responsáveis não vê as atividades de Educação Infantil com a devida importância principalmente as direcionadas para bebês até crianças de quatro anos. Outros comentam não ter tempo para desenvolver as atividades com as crianças, e, além disso, precisam deixá-las com avós, familiares ou então preferem usar o dinheiro gasto com a mensalidade escolar para contratar uma pessoa que cuide dessas crianças enquanto trabalham.
Após leituras e visualizações de vídeos no youtube que tratam sobre este tema, uma live e um webnário chamam-me bastante atenção, ambos com a presença de Paulo Sérgio Fochi. Em seu canal do Youtube Paulo Fochi conversou a professora Rita Coelho. A mesma citou que “nosso foco tem que ser o humano, pois estamos em tempos de incertezas e novas aprendizagens”.
Observando as falas que esses dois importantes especialistas em educação compartilham conosco, é possível de se perceber colocações e reflexões acerca da criança e do papel que a escola possui em relação a um retorno presencial. No webnário proposto pela FAMURS, Paulo Sérgio Fochi e a pediatra Sabrina também trazem colocações relevantes a respeito deste tema. Em ambos os vídeos, Fochi defende a importância e a necessidade de um retorno que respeite os direitos das crianças, famílias e educadores.
É necessário refletir a respeito dos direitos das crianças, famílias e professores nesse período pandêmico, para avaliar as condições de retorno perante as escolas infantis. No CENPEC cadernos (2020, p. 3), um grupo de autores cita que há inúmeros prejudicados com esta pandemia, mas que não podemos esquecer que existem os diretos que devem serem respeitados.
Em primeiro lugar, deve fundamentar-se nos direitos das crianças, atingidas que foram e continuam sendo por uma crise cuja dimensão ainda não conseguimos avaliar; em segundo, nos direitos de seus familiares, surpreendidos por uma situação sem precedentes de mudança de suas rotinas, condições de sobrevivência, impactos na saúde e, em muitos casos, perdas de parentes e amigos pela doença; e em terceiro, nos direitos dos profissionais da Educação, professoras, educadores, funcionários e gestores das creches e das escolas, tanto públicas como privadas (com ou sem fins lucrativos), que terão de enfrentar uma situação para a qual nenhum de nós foi preparado em sua formação profissional.
Sendo assim, em todas as ações voltadas ao retorno das aulas presenciais, deve-se recordar que não podemos ferir os direitos que existem, pois a preservação de vidas é o mais valioso. Algumas pessoas vêm compartilhando em suas redes sociais e colocando em suas fotos de perfis, que um ano, seja ele financeiro ou educacional, é possível ser recuperado, mas a vida, depois de perdida, não se recupera mais.
Também assisti a apresentação no webnário proposto pela FAMURS sobre um foi levantamento de dados de uma pesquisa referente aos municípios do Rio Grande do Sul. A pesquisa buscou saber a opinião de cada secretário de Educação sobre um possível retorno presencial as escolas começando pela Educação Infantil. No webnário, divulgaram resultados preliminares da pesquisa, sendo assim, dos 382 municípios: 94,1% são contra o retorno presencial, 4,1% são a favor, 1,8% acham necessário pesquisar novas alternativas, 1% concordam que deve começar pela Educação Infantil e 87,10% afirmam que o ensino presencial precisa encetar pelos anos finais.
No município em que moro, Canguçu/RS, foi realiza uma pesquisa geral com a comunidade, onde os responsáveis e professores puderam expressar a sua opinião quanto ao retorno presencial das aulas, mesmo com a decisão do governador, a comunidade se colocou contra este retorno. É possível observar o resultado da pesquisa através do seguinte gráfico:
FONTE: Pesquisa com a comunidade escolar - Prefeitura Municipal de Canguçu/RS
Através dessa pesquisa é possível observar a preocupação da população quanto ao risco que se corre com o retorno presencial das aulas na rede municipal.
O ensino presencial é uma possibilidade, porém, não vem com “receita pronta” dizendo o que devemos ou não fazer. Este modo de ensino hoje, no cenário que estamos vivendo, torna-se incerto e duvidoso em relação a preservação da vida, colocando muitas pessoas em risco.
De acordo com o Portal www.cnnbrasil.com.br, o Brasil já registra mais de 130 mortes entre crianças e adolescentes vítimas da covid-19. Embora, o número de casos positivos em crianças seja menor, com um possível retorno, elas podem tornar-se transmissoras do vírus, visto que menores de dois anos não podem usar máscaras devido ao sufocamento e também mesmo as maiores, ainda não possuem o hábito de usar a máscara durante um período mais prolongado e por necessidade de contato mais próximo poderiam correr riscos de contaminação, visto que, o vírus se propaga pela mucosa (olhos, ouvidos e boca). Sendo assim, é necessário cuidado e higienização intensa.
Para um possível retorno, a escola precisaria de formação e recurso financeiro disponível de modo a atender todas as exigências impostas e assim, possam realizar o trabalho sem perigo de infecção e transmissão do vírus.
Outro fator importante que atrai a minha atenção é o de que a escola não é lugar de “assistencialismo” e sim, conforme defende Fochi, um lugar de trocas de relações, vínculos e aprendizagem. Comenta ainda que não basta apenas querer um retorno mas analisar as condições necessárias para proteção de vida de crianças e educadores. Ele afirma que não devemos nos preocupar com o ensino a distância, mas com a formação e informação necessária visando proteção individual e coletiva nas escolas.
Para que as instituições infantis reabram de forma presencial, é imprescindível seguir muitos protocolos, reconstruindo e transformando espaços que de alguma forma garantam segurança a todos.
Antes do retorno, deve-se avaliar as condições de escolas e EMEIs de nosso estado, pois a maioria não possuem infraestrutura, materiais e verbas para manter o cuidado. É importante lembrar também que escolas estaduais e municipais dependem de repasse de verbas do governo. Esse repasse é demorado e nem sempre pode ser direcionado para uma necessidade específica da escola.
Olhando os documentos de retorno, é possível perceber que estes veem a criança como ser da escola tradicional, onde se sentam um atrás do outro, o professor à frente de todos e um ensino sem muita afetividade. A maioria dos documentos não demonstram preocupação com a saúde emocional das crianças demonstrando um regresso na história da educação.
Estamos em uma geração onde o diálogo e a interação é parte da aprendizagem, além disso, diversos pensadores, como Paulo Freire, Vygotsky e Wallon apresentam a afetividade como peça fundamental do processo ensino/aprendizagem.
O contato físico é difícil ser controlado, principalmente nas escolas públicas onde os espaços são pequenos e não há muita variedade de materiais que possam ser disponibilizadados individualmente. Além do espaço, é preciso lembrar que as crianças necessitam desse contato, pois em alguns casos é o único momento e lugar que essa ação pode acontecer.
No ensino público, é notável as dificuldades para obter retornos das atividades EaD na Educação Infantil, visto que muitas crianças não possuem acesso a internet ou a uma conexão que possibilita interações com seus colegas e professores.
Além das atividades, é importante conhecer a situação atual da criança, averiguando sua saúde emocional em função da pandemia, com quem está, as possibilidades de realização das atividades e as condições financeiras em que sua família se apresenta.
A saúde dos professores também precisa ser olhada com cuidado neste momento, observando seus medos e propostas sobre o ensino de modo a capacitá-los, pois são eles que precisarão reorganizar seu trabalho, rotina e espaços escolares para receberem as crianças de forma que tenham segurança e preparo ao atendê-las.
Para finalizar, trago palavras do presidente da Undime/SP, Luis Miguel Garcia, que diz “Não existe ano perdido! Nós, educadores, temos a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), os Direitos de Aprendizagem e Desenvolvimento e, com esses recursos, vamos organizar e reorganizar tudo o que já sabemos para os anos futuros. Agora, o importante é que sejamos vencedores nessa luta com a pandemia. E que saiamos saudáveis e acreditando no futuro e no poder da superação e da educação! Por fim, é relevante destacar a necessidade do trabalho de busca ativa para que nenhuma criança fique de fora da escola e do ambiente educacional. Toda criança e todo adolescente tem direito à educação!”
Apesar de todas as dificuldades para um retorno, existe um sentimento recíproco entre a maioria dos professores e a maioria das crianças, este sentimento chama-se saudade. É notável a falta que as crianças sentem de estar com os colegas e professores, bem como, os professores de seus alunos, podendo ter a liberdade que tinham antes e isso é impossível controlar, mas cabe a todos tentar fazer com que as crianças passem por esse período com algum crescimento em suas habilidades, com registros realizados de forma qualitativa e o principal sem frustrações decorridas de atividades escolares. Se isso acontecer nos restará, referente a essa pandemia, sentimento de gratidão por todo aprendizado.
REFERÊNCIAS:
Disponível em: https://www.uol.com.br/ecoa/colunas/debora-garofalo/2020/05/06/educacao-infantil-o-cuidado-com-as-atividades-no-periodo-da-pandemia.htm. Acesso em: 05 outubro.2020.
Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=vSxdCajUG5Y. Acesso em: 12 outubro.2020.
Disponível em: Webnário "O Retorno da Educação Infantil - Questões para pensar"
: https://www.youtube.com/watch?v=WNowDOBV3Fc. Acesso em: 13 outubro.2020.
Disponível em: https://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2020/08/17/pesquisa-aponta-que-94percent-dos-prefeitos-do-rs-e-contra-a-volta-as-aulas-presenciais-em-31-de-agosto.ghtml . Acesso em: 13 outubro.2020.
Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2020/05/pandemia-leva-pais-a-tirarem-filhos-de-escolas-de-ensino-infantil-e-poe-setor-em-risco.shtml. Acesso em: 14 outubro.2020.
Disponível em: http://cadernos.cenpec.org.br/cadernos/index.php/cadernos/article/view/279/278. Acesso em: 14 outubro.2020.
CENPEC, Cadernos. Entrevista com Rita Coelho: "Defendo uma forte institucionalização da educação infantil no âmbito das competências do Estado". Cadernos Cenpec | Nova série, [S.l.], v. 4, n. 1, dez. 2014. ISSN 2237-9983. Disponível em: <http://cadernos.cenpec.org.br/cadernos/index.php/cadernos/article/view/279/278>. Acesso em: 15 out. 2020. doi:http://dx.doi.org/10.18676/cadernoscenpec.v4i1.279.


Disponível em: https://youtu.be/DwiAnktEELo