
Crônicas de uma pedagoga em formação

Esta crônica faz relação com o que Cora Coralina denomina de “pretensos direitos de educação” de que utilizam adultos em sua relação com as crianças, tratando em específico quando lhes há a negação do senso de pertencimento ao cotidiano em que estão inseridas com justificativas que não contemplam as potencialidades nas especificidades da Infância.
Era gente superenjoada.
Solene, empertigada.
De velhas conversar
que davam sono.
Antiguidades...
Até os nomes, que não se percam:
D. Aninha com Seu Quinquim.
D. Milécia, sempre às voltas
com receitas de bolo, assuntos
de licores e pudins.
D. Benedita com sua filha Lili.
D. Benedita - alta, magrinha.
Lili - baixota, gordinha.
Puxava de uma perna e fazia crochê.
E, diziam dela línguas viperinas:
"- Lili é a bengala de D. Benedita".
Mestre Quina, D. Luisalves,
Saninha de Bili, Sá Mônica.
Gente do Cônego Padre Pio.
D. Joaquina Amâncio...
Dessa então me lembro bem.
Era amiga do peito de minha bisavó.
Aparecia em nossa casa
quando o relógio dos frades
tinha já marcado 9 horas
e a corneta do quartel, tocado silêncio.
E só se ia quando o galo cantava.
O pessoal da casa,
como era de bom-tom,
se revezava fazendo sala.
Rendidos de sono, davam o fora.
No fim, só ficava mesmo, firme,
minha bisavó.
D. Joaquina era uma velha
grossa, rombuda, aparatosa.
Esquisita.
Demorona.
Cega de um olho.
Gostava de flores e de vestido novo.
Tinha seu dinheiro de contado.
Grossas contas de ouro
no pescoço.
Anéis pelos dedos.
Bichas nas orelhas.
Pitava na palha.
Cheirava rapé.
E era de Paracatu.
O sobrinho que a acompanhava,
enquanto a tia conversava
contando "causos" infindáveis,
dormia estirado
no banco da varanda.
Eu fazia força de ficar acordada
esperando a descida certa
do bolo
encerrado no armário alto.
E quando este aparecia,
vencida pelo sono já dormia.
E sonhava com o imenso armário
cheio de grandes bolos
ao meu alcance.
De manhã cedo
quando acordava,
estremunhada,
com a boca amarga,
- ai de mim -
via com tristeza,
sobre a mesa:
xícaras sujas de café,
pontas queimadas de cigarro.
O prato vazio, onde esteve o bolo,
e um cheiro enjoado de rapé.
NOME: Lais Ribeiro Soler
DATA: 27/08/2021
O SONHO DE SUBIR NO TELHADO
Um dos meus maiores sonhos quando criança era o de subir no telhado. Eu subia nas árvores do quintal, escalava a escada de madeira que ficava encostada na garagem, contava os minutos que conseguia ficar apoiada na parte mais alta do batente da porta com pés e mãos, mas nunca no telhado.
Quando era preciso arrumar a antena para melhorar a transmissão ou limpar a calha, meu pai pegava a tal escada, apoiava na parede de casa, e subia no telhado. Eu queria imitar tudo o que ele, minha pessoa favorita no mundo, fazia, e não seria diferente com o galgar o cume daquele conjunto de telhas sobrepostas.
Um dia, reuni toda a coragem que cabia nesse grande sonho e, ao vê-lo pegar a escada, fui atrás para pedir permissão. Talvez o ser corajosa fosse preciso por já esperar as negativas constantes e a justificativa que nada justificava “porque você é criança!”. Mas, naquele dia, uma outra resposta me foi dada, que também nada justificava.
Para ele, eu não poderia subir em um telhado porque era uma menina. Quando ele me disse isso, me soou como um dos outros nãos que era acostumada a ouvir. Arrisco dizer pela ordem das recordações que desfilam em minha memória que fui compreender o significado daquele “não” quando meu irmão mais novo, algum tempo depois, acompanhou meu pai para o tão sonhado lugar acima da casa. Lembro-me de sentar em um banco azul que ficava em frente ao ponto onde colocavam a escada para chegar ao telhado, e ficar a observar com tristeza os dois juntos lá no alto girando a antena.
Eu cresci, nunca subi em um telhado, meu pai continuou a ser minha pessoa favorita, e hoje entendo o contexto daquela negativa que, como diz Cora Coralina, de tempo em que “gente grande da casa usava e abusava de pretensos direitos de educação”. Já até sonhei que estava com os dois lá no alto, a girar a antena da televisão. Mas precisou crescer para entender que subir em um telhado (especialmente com uma escada bamba) é arriscado para adultos e crianças, seja menino ou menina.
Referência
ANTIGUIDADES
Cora Coralina
Quando eu era menina
bem pequena,
em nossa casa,
certos dias da semana
se fazia um bolo,
assado na panela
com um testo de borralho em cima.
Era um bolo econômico,
como tudo, antigamente.
Pesado, grosso, pastoso.
(Por sinal que muito ruim.)
Eu era menina em crescimento.
Gulosa,
abria os olhos para aquele bolo
que me parecia tão bom
e tão gostoso.
A gente mandona lá de casa
cortava aquele bolo
com importância.
Com atenção. Seriamente.
Eu presente.
Com vontade de comer o bolo todo.
Era só olhos e boca e desejo
daquele bolo inteiro.
Minha irmão mais velha
governava. Regrava.
Me dava uma fatia,
tão fina, tão delgada...
E fatias iguais às outras manas.
E que ninguém pedisse mais !
E o bolo inteiro,
quase intangível,
se guardava bem guardado,
com cuidado,
num armário, alto, fechado,
impossível.
Era aquilo, uma coisa de respeito.
Não pra ser comido
assim, sem mais nem menos.
Destinava-se às visitas da noite,
certas ou imprevistas.
Detestadas da meninada.
Criança, no meu tempo de criança,
não valia mesmo nada.
A gente grande da casa
usava e abusava
de pretensos direitos
de educação.
Por dá-cá-aquela-palha,
ralhos e beliscão.
Palmatória e chineladas
não faltavam.
Quando não,
sentada no canto de castigo
fazendo trancinhas,
amarrando abrolhos.
"Tomando propósito".
Expressão muito corrente e pedagógica.
Aquela gente antiga,
passadiça, era assim:
severa, ralhadeira.
Não poupava as crianças.
Mas, as visitas...
- Valha-me Deus !...
As visitas...
Como eram queridas,
recebidas, estimadas,
conceituadas, agradadas !
A crônica surge a partir do poema A menina avoada de Manoel de Barros, considerando as falsas lembranças de minha infância.

NOME: Mariana de Mello Leão
Acordei nostálgica.
Uma saudade daquilo que nem sei se vivi: minha infância.
São raras as lembranças deste período de minha vida. Mas, basta olhar, ler ou ouvir histórias sobre a infância no interior que surge um sentimento de pertencimento.
De pertencer àquela criança que transforma terra, folhas, pedras e gravetos no que quiser, criando o ambiente que desejar, interagindo com os seres vivos e não vivos que sua imaginação inventar. Aquela criança que passa horas construindo e descontruindo seus brinquedos não comercializados, sem a menor pressa de voltar ao convívio social no mundo dos adultos.
Como pode uma pessoa sentir saudade de algo que talvez nunca tenha existido? Ou pior, como posso ousar criar a sensação de pertencimento sobre uma criança inventada?
Sei lá, talvez eu seja só mais uma criança com a imaginação aflorada presa num corpo de adulto.
Foi na fazenda de meu pai antigamente.
Eu teria dois anos; meu irmão, nove.
Meu irmão pregava no caixote duas rodas de lata de goiabada.
A gente ia viajar.
As rodas ficavam cambaias debaixo do caixote:
Uma olhava para a outra.
Na hora de caminhar as rodas se abriam para o lado de fora.
De forma que o carro se arrastava no chão.
Eu ia pousada dentro do caixote com as perninhas encolhidas.
Imitava estar viajando.
Meu irmão puxava o caixote por uma corda de embira.
Mas o carro era diz-que puxado por dois bois.
Eu comandava os bois:
— Puxa, Maravilha!
— Avança, Redomão!
Meu irmão falava que eu tomasse cuidado porque Redomão era coiceiro.
As cigarras derretiam a tarde com seus cantos.
Meu irmão desejava alcançar logo a cidade —
Porque ele tinha uma namorada lá.
A namorada do meu irmão dava febre no corpo dele.
Isso ele contava.
No caminho, antes, a gente precisava de atravessar um rio inventado.
Na travessia o carro afundou e os bois morreram afogados.
Eu não morri porque o rio era inventado.
Sempre a gente só chegava no fim do quintal.
E meu irmão nunca via a namorada dele —
Que diz-que dava febre em seu corpo.
O poema A menina avoada compõe o livro Exercícios de ser criança de Manoel de Barros, publicado em 1999.
Crônica inspirada no poema “Canção do dia de sempre” nela somos orientados pelo autor Mario Quintana a viver um dia após o outro, aproveitando cada instante e enxergando a beleza da vida.

NOME: Gabriele Gomes Santos
Cansaço
Eu sinto como se os dias passassem como o vento, as horas como um mar agitado e os minutos como um suspiro.
Eu vivo tentando ser grata por tudo, mas ao mesmo tempo sou ingrata a todo momento.
Eu sei de tantas coisas erradas, mas aceito e a vida segue.
Levanto, trabalho, estudo e durmo suspirando naquele último minuto.
Eu quero fazer mais, mas me falta tempo para tudo que desejo fazer.
Eu penso que faço as coisas pela metade, como não deveria ser.
Eu pressuponho onde quero chegar, mas com incerteza de que se realmente vou gostar.
Me vejo atirando no escuro sem saber onde irei parar.
Quando na verdade também bem sei que deveria viver um dia de cada vez, sabendo que tudo sempre irá recomeçar.
Mas para isso não tenho tempo.
A crônica surge sobre a temática das desigualdades sociais e as diversas infâncias, através de minha vivência com crianças de classe média alta na escola em que trabalho, e minhas reflexões ao observar a cidade no caminho de volta para casa.
Também um breve comentário sobre o acontecimento da semana que deixou o mundo apreensivo: a volta do Talibã ao poder no Afeganistão.
Ao final, a fotografia selecionada ontem sobre Imagem de Infância e de Criança
NOME: Mariana de Mello Leão
Terça-feira e o lixo da desigualdade
Todos os dias, desde que comecei a trabalhar em uma escola com um público de nível socioeconômico acima de mim e da grande população brasileira, venho entrando em dilemas sociais e ideológicos. Entre tantas novidades, descobertas e questionamentos, são os pequenos acontecimentos do dia a dia - aqueles rotineiros que se você não prestar atenção aos detalhes nem irá notar devido a demanda do dia - que me incomodam mais.
Todos os dias produzimos uma grande quantidade de lixo na escola, pois sempre há muitos materiais a disposição para as produções da turma, havendo então um desperdício em grande quantidade destes materiais, mas isso não me revolta, pois sei que não existe a preocupação em ter que guardar o que sobra para reutilizar mais tarde, já que qualquer necessidade de materiais ou serviços basta ligar para o pessoal da manutenção que eles resolvem tudo. O que me deixa triste é o desperdício de comida. Diariamente, na hora do lanche, metade do que as crianças trazem para lanchar é jogado no lixo sem qualquer peso na consciência, eles trazem em média três tipos de refeição sólida + três líquidas, abrem tudo, dão uma provada em cada um e botam fora. Quem bota fora? Eu, a professora e a auxiliar. Onde botamos fora? Naquele mesmo lixo cheio de materiais recicláveis, já que não há política de separação de resíduos na escola.
Nessa semana, na terça-feira, fizemos uma atividade de culinária: espetinho de frutas com marshmallow. Cada criança trouxe diversas frutas, a escola deu os marshmallow e os palitos, e assim desenvolvemos a atividade, todos comeram e adoraram. Ao final, o que fazer com as sobras? Jogar tudo no lixo. O lixo cheio de papel pardo, caixas de papelão, folhas, etc, recebeu uns 4kg de frutas frescas picadas. Ao final da aula, com as crianças felizes e entregues aos pais dentro de seus respectivos carros, juntei minha mochila e minha revolta por ter participado deste ato simples e pouco chocante aos demais e fui para casa.
Enquanto espero o ônibus e percorro o caminho até minha casa, fico analisando ao redor: pessoas dormindo no chão, crianças e adolescentes pedindo dinheiro, catadores de lixo buscando materiais recicláveis para vender, pois o sustento de suas famílias e seus filhos dependem disso. E, ao chegar em casa, encontro o Maurício, um rapaz que sustenta seus três filhos fazendo “bicos” e dependendo da ajuda das pessoas, conhecido por todos no meu bairro, inclusive estudou comigo nos primeiros anos escolar, mas acabou entrando para a estatística do fracasso escolar. Sabem o que ele me pediu enquanto eu chegava do trabalho, logo após destruir materiais recicláveis e jogar comida fora? Algo de comer para dar aos filhos assim que chegasse em casa e se eu tinha algum material escolar usado que ele pudesse reutilizar para dar ao seu filho mais velho estudar.
Passei o resto do dia pensando na desigualdade social, revoltada em contribuir com uma parte da sociedade que trata ações comuns como algo banal e, ao mesmo tempo, vivenciar a realidade de quem vê o banal como essencial. Fiquei pensando sobre o quão longe os filhos do Maurício estão das crianças de minha turma. Enquanto refletia em um misto de tristeza e revolta, construía um mapa conceitual sobre o texto de título “Construindo a Primeira Infância”, nele há uma frase que eu achei tão bonita e que escrevi aleatoriamente em um caderno, a frase diz assim: “Contribuir para a emergência de uma colcha de retalhos pluralistas de coexistentes visões de mundo e experiências de vida”
Estamos num processo de reconhecer a diversidade, aceitar o potencial das crianças e suas identidades, criações e referências plurais. Acho importante e contribuo para isso, mas penso: E aquelas que são invisíveis? E os filhos do Maurício? Devo reconhecer a diversidade daqueles que não possuem o básico que um cidadão precisa ou lutar para que tenham os mesmos direitos que as crianças de minha sala de aula?
Estava em uma noite de muitos questionamentos, resolvi terminar minhas tarefas e encerrar o dia, mas antes de deitar liguei a televisão para me distrair, eis que vejo a seguinte notícia: A volta ao poder do Tabilã no Afeganistão. E agora? Será que as mulheres vão perder seus direitos conquistados nesses últimos anos? E as meninas, poderão estudar? Como era e como fica a infância dessas crianças? Muitos já estão fugindo, morrendo... Fiquei pensando em como aceitar as diversas infâncias sendo que em algumas delas os direitos humanos básicos não estão presentes.
Não dormi nesta terça-feira.
Colagem feita pelo artista turco Ugur Gallenkus.
Ele é um artista digital que combina imagens
famosas com fotografias da realidade,
geralmente em zonas de conflito, para
mostrar o contraste das realidades sociais.


(Semente/ Seed de Apolo Torres)
NOME: Gabriele Gomes Santos
A EMOÇÃO DE TER AVÓS
Hoje em um dia comum olhando os meus avós conversarem, lembrei-me da minha infância.
Minha avó sempre muito paciente comigo era a única que quando me levava a escola eu me desatava a chorar.
Minha professora dizia:
- Pode ir Senhora, que daqui a um pouquinho ela para.
Penso eu que ela pensava que menina mimada.
Ah, mas que lágrimas bem sofridas, ficar por apenas umas horinhas longe da minha pessoa, minha avozinha.
Lembro-me que ela ficava sentada em um banquinho do lado de fora da porta da sala, com a o braço esticado para dentro segurando minha pequena mão até que eu me sentisse a vontade de soltar-me.
Essa lembrança me fez parar e refletir...
Até hoje quando estou com a mesma insegurança de 20 anos atrás ou simplesmente com o coração apertado por algum motivo, corro para segurar a mão dela.
As vezes um único abraço sem nenhuma sequer palavra é suficiente para que eu me sinta a vontade de soltar-me e voltar tranquila para minha casa.
A despedida é algo que mesmo cedo para se falar, penso desde já e tento trabalhar em mim.
Sei que terá um dia que não voltarei mais tão tranquila para minha casa, mas que as lembranças de sementes plantadas em mim por ela, serão capazes de acalmar meu coração.
NOME: Cinara Tonello Postringer
AINDA BRINCO?
Começo a minha crônica de hoje com uma pergunta a mim mesma, futura pedagoga que adora trabalhar com crianças pequenas, eu ainda brinco, mesmo depois de adulta? Essa reflexão comecei a fazer depois que assisti alguns documentários que nossas professoras orientadoras do estágio em Educação Infantil nos recomendaram.
Um daqueles documentários que assisti me chamou a atenção logo de início, com o seu título “Tarja Branca”, logo pensei, será tipo uma receita de remédio? Com uma grande curiosidade em assistir logo deparei-me com um lindo documentário que fala da importância do brincar na vida das crianças, e também na vida de nós adultos que, infelizmente, achamos que só porque estamos “grandes” não precisamos mais brincar, pode ser também devido ao pouco tempo que temos durante o dia para pensarmos nisso.
Quando crianças passávamos os dias brincando do acordar ao dormir, só que essa realidade infelizmente não era para todos, muitos adultos de hoje mão tiveram infância, pois tinham que ajudar a sua família, trabalhando para o sustento da casa. Em famílias da zona rural os filhos deveriam, por exemplo, ajudar na lavoura desde tenra idade.
O documentário fala que o brincar é urgente. A brincadeira infantil faz parte da nossa formação social, intelectual e afetiva. Através das brincadeiras nos socializamos, nos definimos como sujeito adulto, mas será que ainda cultivamos essa cultura lúdica em nossas vidas? Será que a criança que fomos gosta do adulto que somos? E agora com a pandemia, como estão essas crianças? E esses adultos? Será que as crianças e nós adultos saberemos nos socializar novamente? Penso e espero que sim, cada um do seu modo, e nós adultos devemos trazer de volta a criança brincante que está adormecida em nosso passado.






Esta crônica foi inspirada no filme "A jornada de vivo".
NOME: Anny Karolinne Moraes Castro
A inocência de uma criança
Quando somos crianças achamos que podemos vestir nossas "capas" de super-heróis e sair por aí, cheios de "super poderes" para enfrentar ao mundo que vai além do portão de nossas casas. Não temos medo e nem pensamos, na maioria das vezes, que algo de ruim possa nos acontecer. Lembro que quando era criança adorava pegar a bicicleta e sair pedalando pelos quarteirões de casa, me sentia tão livre, tão independente, aquela bicicleta quase me dava asas...
Um belo dia, queria muito um gatinho de estimação e então não hesitei ao pedir para minha mãe e a resposta dela foi a que eu já esperava:
- Não filha, nem pensar mais um animal em casa, já temos a Fifi (cadelinha).
Logo após essa palavra ela deixa escapar uma esperança aos meus ouvidos...
- Gatinha, só se fosse uma siamês...
E um alarme soou aos meus ouvidos, ainda tenho chances!!!
Prontamente, conversando com uma coleguinha da escola na manhã seguinte sobre o fato ela me disse que uma vizinha dela tinha uma gatinha siamês, mas adulta para doação.
Pensa numa alegria que senti naquele momento?
Na parte da tarde minha mãe estava trabalhando, eu ficava em casa com meu irmão que me cuidava e então disse que ia na casa de uma amiguinha e ele concordou. Caminhei um bom bocado, a casa dela não era tão pertinho da minha e não quis ir de bicicleta, pois seria difícil para carregar a gatinha. Ao chegar lá, busquei a gatinha e levei ela no colo com uma coleira pra casa, voltei toda arranhada para casa, mas me sentindo a adulta, responsável com aquele bichinho no meu colo.
Quando minha mãe chegou do serviço, só disse:
- SURPRESA mãe! Aqui está a gatinha siamês que tu disse que queria (não preciso nem dizer que depois disso ela nunca mais me prometeu nada).
Esta crônica foi escrita a partir das provocações trazidas na animação de Hayao Miyazaki, A viagem de Chihiro (2001), que apresenta uma reflexão sobre a transição do final da infância, e a reconstrução da identidade a partir dos acontecimentos que permeiam este período.
NOME: Lais Ribeiro Soler
Discursos de final de infância e arroz branco cozido
O final da minha infância foi anunciado quando tive minha primeira instrução sobre como cozinhar arroz branco. Eu nunca pude ajudar nas questões da vida prática familiar, até o dia em que minha tia me convidou para ajudá-la a cozinhar. O convite logo se apresentou como oportunidade para um discurso se desenrolar sobre como era chegada a hora de desembarcar de minha infância, e finalmente deixar de ser criança.
Afinal, quando é que deixamos de ser criança? Quando é que, como crianças, deixamos a infância? O que é preciso se tornar, aprender ou fazer para encontrar a adulteza que, hora ou outra, vai aparecer em nosso caminho?
Bom, foi naquele dia em que me disseram que, para cozinhar um bom arroz branco, é preciso lavar os grãos várias vezes, e que para ter um bom tempero, o alho precisa ser cortado bem pequeninho. Além disso, me disseram que estes grãos têm de ser fritos muito bem para o arroz ficar “soltinho”. Disseram-me também todas as qualidades e deveres esperados de uma criança que encontra a adulteza.
A verdade é que, na prática, nem a instrução culinária nem o discurso funcionaram muito bem. Meu arroz nunca foi uma iguaria culinária, e nunca consegui cortar o alho de forma que ele ficasse pequeno e uniforme (sempre faltou paciência, confesso). Às vezes fica pastoso como rejunte, outras, duro feito tijolo. Eu também não encontrei a adulteza naquele dia, enquanto mexia a panela.
Nosso encontro aconteceu algum tempo depois, e foi preciso experienciar a vida para saber que ela havia de fato chegado. É só experimentando o arroz que podemos saber de fato se ele está cozido, e não apenas quando nos anunciam que o arroz está bom. E foi assim, experenciando, que me dei conta que havia, finalmente, desembarcado de minha infância, ainda criança.

(Imagem retirada do documentário:
O COMEÇO DA VIDA)
NOME: Aliana Rostand Mendes
Sensibilidade do Gesto
Pensava eu antes desse momento, que talvez meu sentimento de vínculo afetivo ainda pudesse ser solitário e individual.
Ao final do período na escola, em uma turma de maternal, no instante do retorno das crianças para casa, chamei o pequeno Joca (Joaquim) e perguntei-lhe se podia arrumar seu cabelo, ele com aquele doce olhar e expressão de alegria logo deu-me permissão, então o fiz com todo carinho e atenção. Em seguida, fui alcançar a mochila dele para professora titular acompanhá-lo até a saída, como de costume, e, naquele instante fui surpreendida com a fala de Joca (Joaquim) à professora titular.
- Não! Prof Aliana leva!!!
A professora titular com toda sua sensibilidade pessoal e profissional alcançou-me a mochila de Joca (Joaquim), e assim, com um sentimento de honra e reciprocidade invadindo-me, estendi minha mão e acompanhei-o até a porta de saída, entregando-o ao seu pai.
Nesse último encontro da semana recebi um presente, presente que veio em forma de gesto.
A crônica foi inspirada no documentário O Começo da Vida 2 – Lá Fora (2020), que aborda a conexão entre infância e natureza, defendendo o direito da criança à natureza.
NOME: Mariana de Mello Leão
Somos a natureza!
Crianças são brotos
Adultos são semeadores (ou deveriam ser)
E o capitalismo, agrotóxico.
Brotos são potentes, diversos, sempre se desenvolvendo, do seu jeito, conforme sua natureza. É claro, precisam de cuidados: terra, água e sol, no mínimo. Umas são mais resistentes as pressões externas, sobrevivem até a tempestades ou secas, já outras espécies necessitam mais atenção, nutrientes especiais e todo um cuidado externo.
Adultos, para além de semear, devem cultivar os brotos, respeitando o tempo de crescimento de cada espécie e desejando que se fortaleçam o suficiente para viverem sua integralidade, seja dando frutos ou servindo de alimentos, seja para se transformarem em outras coisas, seja para proteger outras espécies ou simplesmente para enfeitar e tornar o ambiente mais bonito e vivo.
Mas, infelizmente, há quem se renda aos agrotóxicos, ou pior, queira que todos os brotos sejam sojas e que vivamos em uma monocultura. Todos sabem que só há natureza se houver diversidade e que um único agrotóxico não é capaz de destruir a policultura, porém também sentimos na pele (digo, nas folhas) o envenenamento gradual de todo ecossistema devido ao uso incontrolável do tal agrotóxico.
Mas há esperança, há os povos nativos e sempre terá os ambientalistas, defensores da vida, da diversidade e do planeta. Sempre haverá pessoas resistindo a pragas, principalmente aquelas não naturais. Sempre haverá o cultivo do pertencimento e do (auto)reconhecimento da natureza e sua importância, que é essencial.
Sempre haverá sementes, pois somos a natureza!


Inspirado no documentário Tarja Branca
NOME: Gabriele Gomes Santo
A busca pela felicidade.
(Minha crônica é uma reflexão em relação a vida que a maioria das pessoas vive hoje em dia, a busca pela felicidade em bens materiais)
O que eu preciso para ser feliz?
Primeiro uma casa, depois um carro, talvez um pouco mais de conforto e algumas viagens para relaxar.
Bem, eu preciso trabalhar bastante para isso.
Minha amiga me chamou para passear, eu neguei. Estou cansada e preciso trabalhar para pagar as contas.
Nem terminei de pagar as parcelas tão soadas do carro que eu comprei ano passado e estou achando que ele não serve mais para mim, eu preciso de outro.
Minha família me convidou para almoçar domingo e depois jogar vôlei na praça perto de casa, da onde eu tenho tempo para isso?
Preciso trabalhar.
Todos os dias eu vou trabalhar em busca da minha felicidade em um lugar que me faz tão infeliz, vivo 8h do meu dia descontente em busca da minha felicidade.
O que é a minha felicidade?
A busca incansável por bens que nunca vão ser o suficiente para suprir o que eu preciso, voltar a ser criança e brincar de viver a vida!
É simples ser feliz a gente é quem complica.
Como é bom sorrir atoa, correr e se sujar.
Como é bom dançar, se molhar na chuva e gargalhar sem se importar com o que vão pensar.
Como faço para voltar?



(Inspirada na arte de Ricardo Ferrari- Memórias da Infância
NOME: Gabriele Gomes Santo
Brincar na rua
Hoje quando caminhava indo para casa, voltando do trabalho observava as ruas do meu bairro. Vazias e tristes!
Quando olhei para o lado avistei uma casa com uma janela grande de vidro que me chamou atenção.
Ali tinham duas crianças e a mãe, a menina de aproximadamente dois anos com um tablet nas mãos, com os olhinhos fixados no que assistia, o menino de aproximadamente sete anos, jogava vídeo game e a mãe no celular.
Nossa! Como me chocou, ruas vazias de alegria e mentes cheias de informações precoces.
Lá estava eu, observando aquela cena com o pensamento longe...
Quando a mãe me olha com uma cara de quem diz “o que estás bisbilhotando?”
Tropeço em uma pedra que servia de trave para alguns meninos que jogavam futebol.
Mesmo com o dedão do pé latejando, o coração se alegrou.
Pensei nem tudo está perdido…
Indaguei eles e disse como é bom brincar na rua né, e eles me responderam
- Quer jogar tia?


"Os Avós" - Elena Flerova
Pintora russa contemporânea (n.1943)
NOME: Aliana Rostand Mendes
Avós (Amorosos Vínculos, Ótimos Sentidos)
Hoje enquanto procurava uma imagem/fotografia de criança para elaborar minha crônica da semana, deparei-me com a lembrança dos meus avós, através de uma imagem fui transportada sentimentalmente para muitos momentos que vivi com eles.
E, foi desse modo, que de repente, um misto de sentimentos me invadiu, aquela tristeza por tê-los perdido, entrelaçada a gratidão pela oportunidade tê-los tido em minha memória afetiva tão bem gravados.
-Esses sim!!!
Pensei eu, em meu mais profundo sentimento. Esses foram ambos excelentes anfitriões!
Em seguida, comecei a pontuar-me mentalmente sobre algumas das mais importantes aprendizagens que eles me propiciaram:
- Com meu avô, aprendi a ter admiração pela leitura, música, religião, amar uma comidinha bem gordinha e também a ser reflexiva o tempo todo.
- Com minha avó, aprendi a amar o cultivo das plantas, a orar, ser faceira pela oportunidade do existir, fazer um pouco de tudo, a me expressar verbalmente e estar sempre otimista com a vida sendo extremamente grata.
Com os dois:
- Tive a oportunidade de participar, admirar e respeitar diversas religiões culturais que fazem parte da nossa sociedade, e, também, “Que: Só Pelo Amor Vale a Vida”!

A crônica foi inspirada no livro Infância de Graciliano Ramos (1945), a partir da leitura, busquei refletir sobre a educação de antigamente e a educação atual, trazendo falas recorrentes que ouço de pessoas próximas.
NOME: Mariana de Mello Leão
Antigamente era melhor
A educação de antigamente era melhor, obedecíamos aos mais velhos, podíamos brincar com os amigos, xingar, bater e não tinha essas frescuras de hoje em dia, tudo se resolvia. Eu tinha um amigo negro, gordo e que usava óculos na escola, todos chamavam ele de macaco, quatro olho, bicha, baleia, entre outros apelidos de criança, ele nunca disse que sofreu bullying igual essas crianças de hoje. Nunca mais tive contato com ele, mas fiquei sabendo que ele casou e tem um gurizinho, virou um homem de verdade, sem frescura.
Esses dias fui brincar com meu sobrinho orelhudo e o moleque abriu o berreiro, foi correndo contar para a minha irmã aos prantos, e ela, moderninha e que adora essa geração mimimi, veio me repreender, cheia dos “isso não pode, isso não se faz” e blá blá blá, nem parece que viemos da mesma família. Lembro do dia que chorei quando criança por uma bobagem dessas, tinha a idade do meu sobrinho, na mesma hora meu pai pegou a chinela e bateu em mim para que eu parasse de chorar ou para que tivesse um motivo de verdade para chorar. Nunca mais chorei, ou se chorei, me escondia para que ninguém pudesse ouvir, aprendi a ser forte, mas tem uma coisa, até hoje eu não consigo lidar bem com meus sentimentos, sempre busco reprimi-los.
Minha irmã acha que tudo se resolve pelo diálogo, trata todo mundo de igual para igual, até mesmo as crianças. Sei que na infância dela o sistema era outro, era criança brinca com criança e adulto conversa com adulto, mas agora, os filhos dela vivem no meio dos adultos, querem interagir como se fizessem parte da roda do chimarrão, fico impressionado. Não lembro da gente, enquanto criança, ter esse repertório todo de assuntos que têm meus sobrinhos, a gente ia à escola para aprender a ler, escrever e fazer conta, no máximo tinha a aula de educação física para a nossa diversão, agora essas crianças têm um horror de coisas na escola, mas o principal que é ensinar a ter obediência elas não aprendem.
Se bem que, por mais que eu ache meus sobrinhos cheios de frescuras, eles são bem inteligentes, confiantes até demais, expressam suas vontades e tratam a minha irmã e a nós com respeito e amor, mas sem o medo, o que acho estranho, pois nossa mãe sempre ensinou que quem tem medo tem respeito. Não entendo essa geração nova, nem sei se quero entender, mas de uma coisa estou certo, o homem que sou hoje é consequência da educação que tive.
Agora estou até pensando sobre isso tudo. Se eu fosse criado pela minha irmã, quando vê eu saberia lidar com meus sentimentos e resolver as coisas por meio do diálogo também, sei lá. Será mesmo que antigamente era melhor?
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INFÂNCIA - GRACILIANO RAMOS [PÁG. 014-015]
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“Meu pai e minha mãe conservavam-se grandes, temerosos, incógnitos. Revejo pedaços deles, rugas, olhos raivosos, bocas irritadas e sem lábios, mãos grossas e calosas, finas e leves, transparentes. Ouço pancadas, tiros, pragas, tilintar de esporas, baticum de sapatões no tijolo gasto. Retalhos e sons dispersavam-se. Medo. Foi o medo que me orientou nos primeiros anos, pavor. Depois as mãos finas se afastaram das grossas, lentamente se delinearam dois seres que me impuseram obediência e respeito. Habituei-me a essas mãos, cheguei a gostar delas. Nunca as finas me trataram bem, mas às vezes molhavam-se de lágrimas — e os meus receios esmoreciam. As grossas, muito rudes, abrandavam em certos momentos. O vozeirão que as comandava perdia a aspereza, um riso cavernoso estrondava — e os perigos ocultos em todos os recantos fugiam, deixavam em sossego os viventes miúdos: alguns cachorros, um casal de moleques, duas meninas e eu. De repente surgiu a terceira irmã, insignificância, nos braços de Sinha Leopoldina. Não fiz caso disso.”

O artista francês Julien Malland, conhecido como Seth Globepainter, viaja para diversos países divulgando sua arte através do grafite, retratando crianças em prédios, muros e outras construções.
NOME: Mariana de Mello Leão
A janela
Estávamos construindo uma casa coletiva, enorme, com quatro andares, cheia de mobílias e tudo mais que desejássemos. Para combinar com a casa de papelão, combinamos de que todos os elementos dela seriam feitos com caixinhas de produtos descartáveis, forramos com papel pardo e fomos enfim construir os elementos que constariam em nossa casa. Cada criança ganhou duas caixinhas para que desenhassem algo no qual desejariam ter na casa, a maioria transformou as caixinhas em televisão, videogame, cama, sofá, mas Laura não. Laura rapidamente contornou com o giz de cera a volta da caixa e disse: terminei, professora. Eu, com o olhar já viciado, olhei o desenho dela e pensei “hum, ok, outra televisão para a nossa casinha”, mas perguntei o que ela havia desenhado e a resposta, para a minha surpresa, foi uma simples palavra acompanhada de uma interjeição: janela, ué.
Ao final, todos brincaram e a janela ficou num canto esquecida, mas em mim não. Sigo pensando no quão significativo é a janela. Lembrei até de quando eu frequentava a escola, pois meu lugar na classe sempre foi perto da janela. Hoje em dia também, ao entrar em um ônibus, por exemplo, a primeira coisa que faço é procurar um lugar vago na janela. Aliás, em qualquer ambiente que vou, sempre sou atraída a ficar perto de uma janela. Chega a ser engraçado, sou extremamente apegada às janelas e nunca havia percebido.
Até a sua definição me atrai: JANELA (substantivo feminino) 1. abertura ou vão na parede externa de uma edificação ou no corpo de um veículo, que se destina a proporcionar iluminação e ventilação ao seu interior. Pois bem, agora que descobri meu encantamento por janelas, através da Laura, quando perguntarem meu lugar favorito, certamente responderei: A janela.


A presente crônica parte da obra “ O livro das Ignorãças” elaborada pelo autor Manuel de Barros, livro cheio de encantos e neologismos, tendo como intuito mostrar o quanto é possível nos encantarmos, indo ao encontro dos sentidos que elencamos as coisas do mundo e das infinitas possibilidades de darmos a esse, significações conforme nossa percepção humana individual/coletiva.
NOME: Aliana Rostand Mendes
“Voar fora da Asa”
Nessa semana, presenciei na escola uma cena maravilhosa, as crianças brincavam e interagiam alegremente no pátio, de repente elas começaram a movimentar-se de maneira diferente, passaram a observar um inseto que havia na grama sintética, uma a uma, elas começaram a parar, agachar e olhar atentamente para aquele pequeno inseto. O mais interessante de tudo, foi a oportunidade de presenciar aquele momento, não apenas contemplar a curiosidade delas ao perceber a existência daquele minúsculo inseto que ainda não conheciam, mas ao mesmo tempo, poder ver elas compartilhando daquele momento, descoberta e novo conhecimento. As crianças cuidaram o tempo todo para não pisar ou atropelar aquele pequeno inseto, zelaram por ele até o último minuto no pátio, uma cena memorável.
Assim, no silêncio das minhas palavras e na abertura do meu despertar de atenção, pensei eu enquanto adulta e educadora, quanta beleza existe na vida, seja ela qual for, existem detalhes do tamanho daquele inseto que fazem toda a diferença nas nossas percepções, e, também, existem asas poderosas de significações do tamanho da disposição, imaginação e gestos das crianças.



Crônica inspirada no poema: Infância de Carlos Drummond de Andrade
NOME: Aliana Rostand Mendes
Querer Menos - Fazer Mais!
Em um dia como esse, algo de marcante aconteceu.
E lá estava eu, sentada na escola depois de ter passado a manhã na brinquedoteca com as crianças, estava, no instante, na sala de referência, esperando em silêncio a única criança, que fica em período integral, pegar no sono, e entre meus milhares de ideias afloradas, pensando e imaginando muitas coisas que eu ainda queria ter...
De repente, percebi que aquele menino, bem pequeno, com seus no máximo 3 anos e meio, queria me dizer algo. Logo, saí do meu mundinho das ideias, parei, observei e perguntei:
O que você gostaria de fazer?
Supondo obviamente que ele iria me responder: -dormir
E foi aí, que o menino me observou de volta atentamente, e, com um doce olhar e voz de sussurro me respondeu:
- O que eu quero fazer?! Eu quero é brincar com tudo que ainda não brinquei de manhã, quero poder tocar em cada uma daquelas coisas que não pude tocar porque estava dormindo.
Então eu disse a ele:
- Que Bacana que te chamou atenção aquele espaço, eu fiz pensando em você, e, você pode e vai brincar com tudo aquilo, não se preocupe!
Posteriormente, pensando naquela situação e a costurando com minhas ideias anteriores fiquei a me indagar: - deveria eu, seguir o exemplo daquele menino, pensar mais no que quero fazer, do que naquilo que quero ter... Grandes possibilidades né, já que o ter, se perde em algum momento ou perde a graça, ou, não é mais tão atraente depois de alguns instantes, mas, o fazer não é assim não, o fazer é impresso em nós, para sempre, enquanto sentido e experiência de vivência!

Crônica baseada em entrevista com professoras da Educação Infantil
NOME: Aliana Rostand Mendes
A Nobreza do Sentimento das Crianças
Hoje, uma criança pediu para ir ao banheiro, e eu prontamente disse:
- Sim, a prof. já te acompanha.
No mesmo instante, ela disse:
- Prof., eu te amo!
Eu, sem perceber, acabei não respondendo...
Alguns segundos depois, notei que ela estava parada na porta da sala, me olhando atentamente. Eu então perguntei:
-Vamos então ao banheiro?
Ela repetiu, dessa vez alto, bem alto:
-Prof., eu te amo! (Com uma carinha de quem diz: “fala algo também, prof.")
Eu logo respondi:
-Também te amo, lindona!
Quando rapidamente ela disse:
-Agora sim podemos ir ao banheiro!
Em seguida pegou minha mão para acompanhá-la.
Não preciso nem dizer o quanto adoro minha profissão e esses seres tão potentes que nos enchem com um carinho tão grande, puro e sincero. Através das crianças posso sentir diariamente a existência do sentimento mais nobre que há: O Amor!


Crônica baseada em entrevista com professoras da Educação Infantil
Edgar Degas. Retrato da família Belleli (1858–1867)
NOME: Lais Ribeiro Soler
O que será que elas estão fazendo?
Quando compartilhávamos um cotidiano na escola, acompanhávamos as crianças diariamente, em nossas rotinas e propostas. Sabíamos de seus medos, suas preferências, suas alegrias e podíamos ver suas descobertas feitas dia após dia.
Durante o tempo que permanecemos em formato remoto, não compartilhamos um cotidiano. Enviamos vídeos, mensagens, sugestões de propostas a suas famílias, mas não compartilhamos mais suas descobertas diárias. Vez ou outra um familiar envia mensagem com retornos, contando algo que percebeu e o encantou; e é pelos áudios e vídeos curtinhos que imaginamos, supomos e criamos hipóteses mil sobre os eventos que puderam maravilhar aqueles adultos.
O que será que as crianças estão fazendo? Pergunta-se a professora, a casinha do pátio, os corredores, as britas solitárias que antes eram ingredientes de sopa. Certamente não estão impressionistas, sentadas, como queria nos contar Edgar Degas. O que será que elas estão fazendo, o que estão aprendendo.
Será que já conseguem escalar alguns degraus? Não vimos nenhum vídeo nem foto. Será que aprenderam a desenhar nuvens no chão batido com um pedaço de graveto caído? A mãe contou que sua filha pintou o desenho da menina no livro de atividades (aquele, comprado na padaria) com o giz vermelho, mas não contou se a criança viu o vermelho no pôr-do-sol. Quem são as crianças remotas que a professora acompanha? O que elas estão fazendo, aprendendo? Pergunta-se a professora que fui, que serei.

Crônica inspirada na conversa realizada através da entrevista com a professora Liane sobre as circunstâncias do novo modo de estar na escola e de fazer a educação infantil, e a sensação de estranhamento entre todos da comunidade escolar.
NOME: Mariana de Mello Leão
Estranhamento
Crianças, ao invés de quinze, três; Revezamento semanal;
Contato físico? Proibido;
Crianças através de uma tela, vazia.
Crianças através de EPIs e restrições, para quê?
Trabalho pedagógico terceirizado, pais fazendo papel de educadores;
Trabalho pedagógico triplicado, presencial e à distância;
Vínculos afetivos e comunicações limitadas;
Protocolos proibindo as famílias de entrarem na escola;
Protocolos proibindo crianças de se tocarem, abraçarem;
Protocolos proibindo brincadeiras na pracinha, brincadeiras de trocas, brincadeiras;
Protocolos proibindo, protocolos proibindo e protocolos proibindo.
Educação a distância na creche? Não faz sentido!
Educação presencial sem interações apropriadas? Não faz sentido!
São muitas restrições, inseguranças e estranhamentos para querer naturalizar o novo normal. Não faz sentido!
