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Alessandra Steilmann - 17/12/2020

MAPEAMENTO DAS ESCOLAS INDÍGENAS DA TERRA INDÍGENA GUARITA

     Este trabalho teve como objetivo o mapeamento de escolas da Terra Indígena (T.I.) Guarita, localizando quais escolas possuem a Educação Infantil (EI). Esse levantamento foi realizado a partir do contato com o Conselho Regional de Educação (CRE), que é responsável pela T.I. Guarita. Os dados iniciais sobre as escolas para o mapeamento foram coletados nos seguintes meios: no blog da 21ª CRE (responsável pelas escolas da T.I.); em conversas por ligação telefônica; aplicativo de mensagens; e-mail; e ainda produções de artigos acadêmicos de autoria de Indígenas residentes nas comunidades da T.I. Guarita. Pode-se assim dividir em duas formas de apreensão dos dados: uma pesquisa bibliográfica e entrevistas. Sendo assim, a pesquisa possui um caráter qualitativo seguindo parâmetros apontados por Rosa (2017) e Van Zanten (2004, apud ROSA, 2017). 

     Uma breve introdução sobre a Terra Indígena Guarita feita por Sales et al. (2016) demonstra que a grandeza da T.I. não é meramente geográfica: 

A Terra Indígena (T.I.) Guarita está localizada no noroeste do Estado do Rio Grande do Sul-RS, com uma área de 23.406,87 hectares, entre os municípios de Tenente Portela, Redentora e Erval Seco, segundo dados da FUNAI-CTL (Coordenação de Trabalho Local). Também faz limite com o município de Miraguaí na parte povoada da T.I., e também com o município de Palmitinho no lado onde ainda só tem mata nativa. Atualmente a população em geral é de aproximadamente sete mil indígenas das etnias Kaingang e Guarani. (SALES et al, 2016, p. 6)

     Sobre a composição dos povos que residem na T.I. Da Rosa (2015, p. 16) afirma:

Compõe-se de aproximadamente sete mil indivíduos, das etnias Kaingang e Guarani, e estrutura-se em 16 setores (aldeias), sendo 14 kaingang: Pedra Lisa, ABC, Três Soitas, Linha Esperança e KM 10, que se localizam dentro dos limites do município de Tenente Portela. Já Missão, Estiva, São João do Irapuá, Bananeira, Pau Escrito, Mato Queimado, Katiú Griá, Linha São Paulo, Linha Mó e Laranjeira pertencem ao município de Redentora. E ainda tem as duas aldeias do povo guarani: Gengibre e Capoeira dos Amaros, que se localizam no município de Erval Seco, totalizando 16 setores na Terra Indígena Guarita.

     É importante ressaltar que o povo Guarani e Kaingang, apesar de estarem dentro do mesmo território, tem organizações políticas e sociais diferentes, bem como relações com as comunidades não indígenas que fazem divisa com a T.I. Um exemplo disto, é que as autoridades políticas dos dois povos são diferentes, ou seja, a T.I. tem dois Caciques, um Kaingang e outro Guarani. Neste texto, todas as escolas que participaram do mapeamento atendem ao povo Kaingang.

     As entrevistas foram realizadas do final do mês de outubro até a segunda semana do mês de novembro de 2020. A pesquisa bibliográfica aconteceu transversalmente durante todo o tempo de estágio. Foram feitos contatos com diferentes diretores de escolas indígenas que são residentes em Miraguaí para as entrevistas. Essa escolha foi feita devido a proximidade geográfica com os interlocutores, outro fator que foi levado em consideração é o fato que esses diretores constituem a direção de 50% (ou 6) das escolas. Miraguaí não comporta em seu município área destinada a TI, um dos relatos de professores aponta que, entre os anos de 1990 e 2000, houve um acordo entre as prefeituras de Miraguaí e Redentora, para que Miraguaí não fosse mais parte da T.I., pois a gestão miraguaiense alegou que não tinha recursos suficientes para dar suporte a população indígena. Mesmo não sendo mais parte geograficamente da TI. Miraguaí continua tendo uma forte relação com os Povos Indígenas, como demonstrado pela escolha de diretores e também com a presença de indígenas em diferentes setores da cidade como indústrias e comércio. 

     A primeira ação foi conversar com a professora da Comissão de Educação da TI com a intenção de pedir licença para desenvolver a pesquisa e conversar com os educadores. Depois disso, entrou-se em contato com o responsável pela Educação Indígena da 21ª CRE, que se disponibilizou o envio dos dados quantitativos sobre as matrículas na Educação Infantil, que foi adicionado à tabela desenvolvida. Para esta aproximação foi realizado um roteiro que contém algumas perguntas que tinham como objetivo uma aproximação inicial para o início de uma entrevista:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

     Já para a conversa com os(as) diretores(as), foram elencadas algumas perguntas iniciais para desenrolar o diálogo da melhor forma e poder identificar simetrias e assimetrias nos discursos: 

  • Como está acontecendo o desenvolvimento das atividades para as crianças da escola? 

  • Todas as crianças matriculadas estão tendo acesso às atividades impressas? 

  • De quanto em quanto tempo as atividades são entregues às crianças? 

  • Qual você considera ser a maior dificuldade/desafio para a Educação Infantil Escolar Indígena em tempos de isolamento social?

      A partir das entrevistas realizadas, algumas das conclusões apreendidas foram: o caráter plural das aldeias assim como a suas diferenciações entre si e como é equivocado generalizar os indígenas e suas culturas como se fossem um único estereótipo, precisando levar em consideração na hora de estudos ou de um olhar mais crítico questões como a organização espacial da aldeia, sua localização e as relações com as autoridades indígenas.

     Algumas inquietações foram tomadas a partir das entrevistas. Uma delas, foi a preocupação com conteúdos citados como “as letras” e os “números”. Problematiza-se essa questão de duas formas. A primeira é em relação a concepção da Educação Infantil como uma preparação para a alfabetização ou para o Ensino Fundamental. Esse fato, frequentemente, é justificado pela falta de materiais e de condições precárias econômicas das famílias, o que é preocupante. Por um lado, lembra-se dos materiais de apoio ao professor que foram analisados anteriormente e do fato de não haver nenhuma iniciativa do Estado Gaúcho que seja tão acessível; por outro lado, relembra-se que os professores da rede estadual têm passado por momentos de muita pressão, principalmente em relação ao aumento do controle de suas atividades, inclusive sob ameaças de corte de salário. A segunda, é o fato de que as metodologias usadas não parecem ser diferenciadas, ou mesmo abordar a cultura indígena como um elemento essencial à escola. Segundo Ladeira (2004, p. 147):

Ao transferir uma cultura escolar voltada para um ordenamento urbano, com todos os seus dilemas, exclusão e contradições, para um modelo de escola indígena, estamos duplamente invalidando, através de uma desvalorização implícita ou explícita, outras formas e modos de vivência e saberes e a possibilidade de uma relação simétrica entre os "diversos" que tensamente compõem o eixo da relação Estado brasileiro e povos indígenas.

 

     É importante ressaltar que a Educação Escolar Indígena, deve ser pensada por e para os povos indígenas, de acordo com suas especificidades, demandas e perspectivas. 

REFERÊNCIAS

DA ROSA, Arão. A língua Kaingang na educação infantil da Escola Gomercindo Jẽtẽ Tenh Ribeiro da Terra Indígena Guarita. Florianópolis, 2015. 48p. Disponível em <https://licenciaturaindigena.paginas.ufsc.br/files/2015/04/Arao-da-Rosa.pdf>

LADEIRA, Maria Elisa. Desafios de uma política para a educação escolar indígena. Revista de Estudos e Pesquisas, FUNAI, Brasília, v.1, n.2, p.141-155, dez. 2004.

ROSA, Cristina Maria. Fidedignidade: uma questão de pesquisa. 8 de agosto de 2017. Último acesso em 13/12/2020. Disponível em http://crisalfabetoaparte.blogspot.com/2017/08/fidedignidade-uma-questao-de-pesquisa.html

 

SALES, Elaine Daniel, Amaral, Marcos, Bento, Marlei Angélica, Sales, Osmar Mauricio. Terra Indígena Guarita e sua organização política e social. IN___ Terras Indígenas Kaingang. Organizado por BUENO, Lucas. Florianópolis, 2016. Disponível em <https://licenciaturaindigena.paginas.ufsc.br/files/2017/08/Kaingang.1.pdf 

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