
Ana Francine Montenegro Edom - 27/10/2020
Essa pesquisa trata-se de um estudo de alguns documentos emitidos durante a pandemia de Covid-19. Sabendo que estamos em um momento atípico que nos trouxe muitas mudanças no âmbito da Educação, decidi analisar os seguintes materiais:
- Manifesto da Anped intitulado “Educação a Distância na Educação Infantil, não!”;
- Boletim informativo do Programa de Extensão Universitária Educação Infantil na Roda, desenvolvido pela Faculdade de Educação da UFRGS intitulado “Isolamento social: Lugares possíveis para a instituição de Educação Infantil”;
- Nota da Faculdade de Educação/Universidade Federal de Pelotas sobre a educação em tempos de pandemia;
- Nota de repúdio do MIEIB às medidas provisórias 927 e 928/2020 e ao pronunciamento do presidente da república no dia 24/03/2020;
- Publicação no blog da Profª Drª Gabriela Tebet, intitulado “Algumas ideias para pensar o calendário escolar da Educação Infantil durante e após a pandemia, respeitando os princípios legais que regem a Educação Infantil”.
Nosso atual cenário divide opiniões sobre a forma como devemos ou não lidar com ele. Mas também tem nos permitido alargar nossos conhecimentos, pensar em possibilidades que talvez, em outro contexto, jamais seriam possíveis e nos reinventar todos os dias.
A Educação Infantil, além de estar sendo uma das grandes pautas em discussão, também é a etapa que escolhi para meu estágio final do curso de pedagogia. Sendo assim, acabei por dar prioridade para documentos relacionados a essa etapa do ensino. A escolha desses documentos se deu a partir da necessidade de compreender melhor o atual cenário da Educação, além de se pensar sobre questões importantes referentes ao Ensino a Distância, o isolamento social e a Educação Infantil.
Para sintetizar os conhecimentos adquiridos durante a pesquisa, realizei a construção de um mapa conceitual com as principais ideias de cada documento estudado. Veja a seguir:
Fonte: elaboração da autora
Primeira análise: Educação a Distância na Educação Infantil, não!
No documento da Anped, intitulado: Educação a Distância na Educação Infantil, não!, apresenta-se argumentos para a defesa do direito das crianças a uma educação de qualidade, além de críticas ao EaD na Educação Infantil, relacionando ao nosso atual contexto de isolamento social decorrente ao Covid-19.
Ao pensarmos na Educação Infantil frente ao distanciamento social, deve-se pensar em inúmeros fatores que, direta ou indiretamente, irão influenciar no bem-estar e no desenvolvimento das crianças.
A Educação Infantil possui documentos e leis que a defendem e não prediz que se deve fazer uso do EaD. Sabemos também que as crianças necessitam da vivência e da experienciação, além do convívio social, para se ter uma maior aprendizagem e desenvolvimento. Sendo assim, penso que quando se cogita em uma modalidade a distância para essa etapa da educação, se anula essa questão, levando em consideração apenas a transmissão de “conteúdos”.
Deve-se levar em consideração que, grande parte das crianças não possuem acesso à internet, como diz a reportagem de Tokarnia (2020) ou/e não possuem o material necessário em casa, sem os recursos necessários, se torna ainda mais difícil as aulas a distância. Considerando-se também que há famílias cujos responsáveis são analfabetos ou não possuem tempo disponível para auxiliar os filhos nas tarefas, essa modalidade se torna ainda mais inviável.
Nesse momento tão difícil e desafiador, devemos levar em consideração primeiro a saúde física e emocional dessas crianças, pensando em possibilidades de manter vínculo de auxiliar no que for possível para se manter o bem-estar de todos. A perda do ano letivo é triste, mas não é a principal perda que está em jogo.
Segunda análise: Isolamento social: Lugares possíveis para a instituição de Educação Infantil
Esse documento se trata de um boletim informativo do Programa de Extensão Universitária Educação Infantil na Roda, desenvolvido pela Faculdade de Educação da UFRGS. O mesmo aponta a mudança no cenário Educacional e o fechamento das escolas devido a pandemia de Covid-19.
Tendo relação com a ideia do documento anterior, nesse boletim foi apontado a maneira como se vê a criança referente ao DCNEI e como acontece a relação do cuidar e do educar dentro da escola. Para isso, se aponta algumas ideias de locais que as instituições educativas podem ocupar nesse contexto. Nesse momento, se traz novamente questões como: fortalecimento de vínculo entre a rede de ensino e as crianças e suas famílias, o cuidado com a saúde dessas crianças, o apoio às crianças do AEE, a preparação para o retorno, entre outros.
Da mesma forma que o documento da Anped pondera, é possível perceber nesse boletim informativo que a maior preocupação do momento deve ser o bem-estar das crianças e de suas famílias. De nada adianta estar preocupados com a transmissão de conteúdos, se a criança estiver encontrando dificuldades em outros aspectos. Além de sempre se fazer importante reforçar que o foco da Educação Infantil é o desenvolvimento integral das crianças e, para que isso ocorra, se faz extremamente necessário ter essa postura de sensibilidade e escuta, principalmente nesse momento.
Terceira análise: Nota da Faculdade de Educação/Universidade Federal de Pelotas sobre a educação em tempos de pandemia
Na nota emitida pela FaE, se colocam contra o Ensino de modo remoto e a volta às aulas na Educação Básica devido ao aumento de casos de contaminados, se preocupando com as condições de segurança, com o acesso à educação que alguns não teriam dessa maneira, além da diminuição da qualidade do ensino ofertado, e a associação com a privatização da Educação.
Falando especificamente da Educação Infantil, ainda dizem que, é inviável se pensar em uma volta às aulas de forma presencial sem contato entre crianças e também com os professores, pois deve-se levar em consideração as necessidades básicas das crianças, suas emoções e o espaço e a maneira como os profissionais trabalham, fazendo uso do contato físico.
Também evidenciam a preocupação com o bem-estar dos profissionais, levando em consideração sua saúde física e emocional, sobre suas condições de trabalho e formação continuada de qualidade. Outra característica citada, é a produção de outras relações com a comunidade. Sendo assim, se vê esse momento como uma oportunidade de aprofundar essa relação entre escola e famílias e se pensar estratégias para se manter esse contato após o fim da pandemia.
Por último, defendem a necessidade de projetos com políticas públicas que façam a diferença, ofertando uma Educação de qualidade. Pensando em questões como as aglomerações, cestas básicas para as famílias no lugar da merenda e maneira de proteger as famílias para que tenham o direito de ficar em suas casas com seus filhos sem perder o emprego.
Pode-se então perceber que a postura da FaE não se distancia das demais aqui observadas, já que, todas defendem a mesma coisa, o direito a uma Educação Pública de qualidade e a dignidade e bem-estar das crianças. Além de fazer uma ótima colocação sobre o cuidado com os profissionais da área da Educação, que às vezes acabam por ser inviabilizados. É preciso então se pensar em maneiras de defender os direitos das crianças e professores, assim como de suas famílias e toda comunidade escolar, sem dar ênfase a imposições do sistema que não priorizam a saúde física e emocional dessas pessoas.
Quarta análise: Nota de repúdio do MIEIB às medidas provisórias 927 e 928/2020 e ao pronunciamento do presidente da república no dia 24/03/2020
O Movimento Interfóruns de Educação Infantil do Brasil (MIEIB) manifesta nesse documento seu repúdio a colocação do presidente da república, visto que o mesmo se mostra indiferente em relação a pandemia de Covid-19 e ainda ironiza ao afirmar que a pandemia não passa de uma “gripezinha”. A nota também repudia as Medidas Provisórias 927 e 928, que diminuem os direitos dos trabalhadores, pois a primeira permite o desamparo dos empregados e a segunda, a submissão “da classe trabalhadora a acordos individuais e em condições desiguais”. Ressalta ainda que a redução salarial implica diretamente na saúde das crianças e bebês, se tornando então uma preocupação da Educação Infantil.
Esse documento, diferente dos outros, trouxe um outro problema tão grande quanto a minimização dos direitos das crianças em relação a Educação nesse momento, já que, quando o presidente da república se manifesta contra os cuidados necessários e a seriedade da situação em que nos encontramos, ele acaba por influenciar na atitude de milhares de pessoas que o têm como referência. Sendo assim, fica claro a irresponsabilidade perante o nosso país e as vidas que estão sendo perdidas.
Quinta análise: Algumas ideias para pensar o calendário escolar da Educação Infantil durante e após a pandemia, respeitando os princípios legais que regem a Educação Infantil
Esse documento trata-se de uma publicação no blog da Profª Drª Gabriela Tebet. Começa com a menção a DCNEI (Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil) sobre a Educação Infantil ser desenvolvida em espaços não domésticos, sendo assim, ela já passa a defender a impossibilidade de haver Educação Infantil a distância.
Gabriela ainda levanta um grande questionamento sobre ser ou não possível “repor” as interações e brincadeiras, já que são o foco da Educação Infantil, assim como questiona também se as crianças já não possuem esses momentos de brincadeiras, interações e desenvolvimento em suas casas.
Nessa postagem do blog, também é utilizado como argumento o fato de que a Educação Infantil tem como objetivo desenvolver de forma integral a criança, sendo que isso acontece nas práticas cotidianas. Então, não há necessidade de repor aprendizagens, muito menos de sobrecarregar as famílias com atividades escolares, já que, de uma maneira ou de outra, as crianças já estão se desenvolvendo em seu dia a dia. A escola e seus professores devem sim auxiliar no que for possível, inclusive com ideias para atividades e brincadeiras em casa, mas isso não substituirá as aulas perdidas.
Gabriela sugere em seu blog que, durante o período de pandemia, as crianças da Educação Infantil recebam “falta justificada” e que os professores utilizem esse tempo para planejar a volta às aulas, estudar, aperfeiçoar conhecimentos e estreitar laços com as famílias. Dessa maneira, acredita que estaremos contribuindo com o bem-estar das crianças, familiares e profissionais da Educação Infantil, de forma sensível e responsável.
Referências
ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA EM EDUCAÇÃO et al. EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA NA EDUCAÇÃO INFANTIL, NÃO!. [S. l.], 20 abr. 2020. Acesso em: 22 abr. 2020. Disponível em: https://anped.org.br/news/manifesto-anped-educacao-distancia-na-educacao-infantil-nao
BRUSIUS , Ariete; FLORES, Maria Luiza; CANCIAN, Vivia Ache. ISOLAMENTO SOCIAL: LUGARES POSSÍVEIS PARA A INSTITUIÇÃO DE EDUCAÇÃO INFANTIL. 12. ed. Acesso em: 22 abr. 2020. Disponível em: https://www.ufrgs.br/einaroda/wp-content/uploads/2016/11/n%C2%BA12.pdf
MOVIMENTO INTERFÓRUNS DE EDUCAÇÃO INFANTIL DO BRASIL (MIEIB) (Brasília). Nota de repúdio do MIEIB às medidas provisórias 927 e 928/2020 e ao pronunciamento do presidente da república no dia 24/03/2020. Brasília, 25 mar. 2020. Acesso em: 22 abr. 2020. Disponível em: http://www.mieib.org.br/wp-content/uploads/2020/03/NOTA-DE-REP%C3%9ADIO_MIEIB_25.03.2020-3.pdf
UNIVERSIDADE FEDERAL DE PELOTAS (Pelotas). Nota da Faculdade de Educação/Universidade Federal de Pelotas sobre a educação em tempos de pandemia. Pelotas, 27 maio 2020. Acesso em: 22 abr. 2020. Disponível em: https://wp.ufpel.edu.br/fae/2020/06/09/nota-da-faculdade-de-educacao-universidade-federal-de-pelotas-sobre-a-educacao-em-tempos-de-pandemia/
TEBET, Gabriela Guarnieri De Campos. Pandemia & Calendário Escolar – Como respeitar a Legislação?: ALGUMAS IDEIAS PARA PENSAR O CALENDÁRIO ESCOLAR DA EDUCAÇÃO INFANTIL DURANTE E APÓS A PANDEMIA, RESPEITANDO OS PRINCÍPIOS LEGAIS QUE REGEM A EDUCAÇÃO INFANTIL. São Paulo, 8 jun. 2020. Acesso em: 22 abr. 2020. Disponível em: https://gabrielatebet.com.br/diversos/pandemia-calendario-escolar-como-respeitar-a-legislacao/
TOKARNIA, Mariana. Brasil tem 4,8 milhões de crianças e adolescentes sem internet em casa: Pandemia evidencia desigualdade para acessar rede, diz especialista. Rio de Janeiro: Agência Brasil, 17 maio 2020. Acesso em: 23 out. 2020. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/educacao/noticia/2020-05/brasil-tem-48-milhoes-de-criancas-e-adolescentes-sem-internet-em-casa

Disponível em: https://youtu.be/DwiAnktEELo