
Juliana Aloy Berny - 25/10/2020
A ESCOLA DAS “LIÇÕEZINHAS” – A AÇÃO NÃO REFLETIDA EM TEMPOS PANDÊMICOS
Breve contextualização
Durante a semana do dia 18 de março, fomos informados de que, a partir desse dia, todas as escolas do município de Pelotas fechariam suas portas, fossem elas privadas ou públicas. Podemos dizer que o sentimento inicial era de cuidado e proteção à saúde de todos, e se unia à sensação de que “tudo iria passar logo”, não se fazendo da necessidade de partir para ações de intervenção, mudança e/ou reflexões imediatas do que faríamos com as crianças, principalmente com as menores.
Através de relatos de experiência de algumas professoras das redes públicas e privadas, podemos perceber que cada qual, a seu modo, busca meios para articular a manutenção dos vínculos. De acordo com o Sinpro, em pesquisa da Adufpel, de 15 de setembro de 2020, o setor mais afetado pela inadimplência foi da Educação Infantil, levando ao desligamento de muitos profissionais da educação nesse período. Ao mesmo tempo, as escolas de Educação Infantil do setor público aguardavam orientações da Secretaria Municipal de Educação (SMED) quanto às ações a serem efetuadas.
Nesse cenário de perdas, esperas, também percebemos emergir muitos documentos “informais”, “orientadores” como “O que fazer na Quarentena? Brincadeiras e Atividades”, “Home Office divertido – O que fazer na quarentena”, entre tantos outros, que demonstram um “nicho” a ser conquistado, aquele dos pais desesperados em busca de orientação quanto ao que fazer com seus filhos em casa. Ao abandonarmos nossos postos, ficará a cargo de quem pensar e agir na garantia dos direitos da criança?
É evidente que ao mesmo tempo diversos grupos se preocupam em refletir e discutir quanto aos tempos e as experiências em tempos reais, é a ação-reflexão-transformação da qual nos fala Oliveira-Formosinho apud Fochi (2019).
Diante desse quadro, de ininterruptos acontecimentos, a presente pesquisa tem como objetivo refletir sobre algumas das formações em Educação Infantil em tempos pandêmicos, relacionando-as com as diretrizes propostas pela Secretaria de Educação de Pelotas. Outro documento, muito pertinente a essa discussão, é “Educação à distância na Educação Infantil, não!”, um Manifesto da ANPEd, de abril de 2020, que discute a respeito dessa preocupação com a perda do ano letivo, que negligencia a criança como sujeito de direitos.
A inquietação quanto ao documento PROPOSTA DE ATIVIDADES NÃO-PRESENCIAIS – REDE MUNICIPAL DE PELOTAS/ 2020 se dá, primeiramente por ter sido emitido ao fim do mês de julho, após 4 meses do início da Quarentena, mas principalmente por seu caráter diretivo e não reflexivo.
O Documento - PROPOSTA DE ATIVIDADES NÃO-PRESENCIAIS – REDE MUNICIPAL DE PELOTAS/ 2020
O documento trazido a discussão é da Secretaria Municipal de Educação e Desporto de Pelotas, é denominado de PROPOSTA DE ATIVIDADES NÃO-PRESENCIAIS – REDE MUNICIPAL DE PELOTAS/ 2020, e foi enviado no mês de julho para as Escolas Municipais de Educação Infantil (EMEIS). Logo após, a Secretaria (SMED), através de reunião virtual, se reuniu com as escolas, a fim de expor e “discutir” os direcionamentos que viriam a seguir, como forma de garantir o andamento do ano letivo.
Essa proposta enfatiza a importância da presença da escola nesse contexto, como forma de garantir que os processos de ensino e aprendizagem sejam preservados. A orientação era/é de cada instituição organizar um planejamento geral contendo os seguintes itens: a) divulgação; b) acompanhamento; c) registros; d) arquivamento; e) planejamento pedagógico das atividades não-presenciais; f) número de atividades semanais/ carga horária; g) relatórios; h) controle interno; i) sugestão de ficha para atividade impressa; j) cronograma de entrega das atividades impressas; e k) revisão. Ao final, encontram-se em anexo modelos a serem seguidos.
Percebe-se que o texto somente objetiva orientar as escolas quanto às “burocracias” necessárias e exigidas para comprovação do trabalho realizado juntamente às famílias. Não se evidencia nenhum suporte diferenciado ou formativo para discussão de ações reflexivas nesse período de Pandemia, muito embora, passados 4 meses desde o fechamento das escolas, tenham ocorrido inúmeras oportunidades formativas a respeito.
Trago em destaque o “II Ciclo de Debates: Outro tempo, outra escola de educação infantil pós-pandemia”, promovido pelo LabForma – Grupo de Pesquisa Laboratório de Formação e Estudos da Infância – UFPel, o qual ocorreu, semanalmente, nos meses de junho, julho e agosto. Essa formação se deu de forma pública, através do canal do grupo no Youtube, e lá estão gravadas. O encontro reuniu professoras das redes públicas e privadas, em torno de temáticas como “(Auto)formação de professores durante a pandemia”, “Educação Infantil no modo remoto”, “Saúde emocional de crianças e professores”, “Os aprendizados docentes
com o isolamento social”, “Relação com as famílias: fazendo juntos”, “Planejando um retorno pós-pandemia”, “Outros modos de estar com as crianças na escola de Educação Infantil”, e “Construindo junto outras propostas pedagógicas”.
Esse movimento foi riquíssimo enquanto oportunidade de pensar e dialogar sobre as diferentes realidades e a proposição de ações adequadas às exigências desses “novos tempos”. E mais importante, como forma de refletirmos sobre aquela escola que já não cabia mais para tempo nenhum.
Em contrapartida, o documento da Secretaria Municipal somente reforça uma noção produtivista, de um ato pedagógico impositivo, vazio de significado, cumpridor de horas. Na realidade, ele representa a perspectiva de muitas escolas, que ainda hoje, veem nas “liçõezinhas”, nas folhinhas, na repetição, a única forma de fazer educação.
Quadro 1.1
Através do Quadro 1.1, podemos perceber que a gestão da rede municipal caminha numa direção oposta à formação e às orientações da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (ANPEd). Valendo recordar que muitas professoras estavam participando e colaborando com as reflexões do II Ciclo de Debates, na busca de formação continuada, empenhando-se em pensar os caminhos diferenciados que os tempos demandam.
Em palestra na I Jornada Nacional de Educação Infantil (2020), que ocorreu ao fim do mês de setembro, Paulo Fochi discute sobre essa escola das “liçõezinhas” e sobre a escola da livre expressão, uma noção trazida por Francesco Tonucci em seu livro “A los 3 años se investiga” (1993), declarando que ambas não servem, em defesa da escola centralizada na investigação. Contextualizando, a escola das “liçõezinhas” é essa de perspectiva empirista, diretiva, uma escola de repetição, tarefeira, que vê na criança um sujeito reprodutivo somente, com atividades desconectadas da realidade. Enquanto a outra, a escola da livre expressão, de caráter apriorista, é aquela, que na “tentativa” de reconhecer a criança, acaba por acumular atividades onde o que mais importa na verdade é a performance. E é essa escola das “liçõezinhas” que podemos perceber através desse documento.
Figura 1.1- Imagens ilustrativas retiradas da internet
Como podemos observar, a Figura 1.1 ilustra as atividades que observamos persistir no contexto de Educação Infantil, aquelas solicitadas pelo documento da Secretaria, em tempos de Pandemia. Oliveira-Formosinho (2016, p. 88) comenta que muitos profissionais se encontram insatisfeitos com esses materiais, mas que percebem-se “encerrados num mundo cultural, profissional (comercial...) que os empurra para materiais que rejeitam”.
Afinal, a que e a quem servem as milhões de folhinhas? De que forma podemos superar às diretrizes e intervir a favor dos direitos das crianças, previstos pela BNCC (BRASIL, 2017)? Oliveira-Formosinho (2016. P.89) ainda questiona “Qual é a imagem da criança implícita nestes materiais? A imagem do educador? Qual o conceito do ato educativo?” Não será esse o momento propício para ação-reflexão-transformação (OLIVEIRA-FORMOSINHO. 2019)?
O Manifesto da ANPEd (2020), destaca a importância das crianças terem vivências e experiências significativas, da mesma forma como é fundamental que busquemos saber as condições nas quais estão vivendo, que pensemos nos seus tempos, que dialoguemos com suas famílias. “A maior preocupação nesse momento não pode ser com uma possível perda do ano letivo”.
Referências
ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA EM EDUCAÇÃO. ANPEd. Manifesto ANPEd. Educação a distância na Educação Infantil, não! Disponível em https://anped.org.br/news/manifesto-anped-educacao-distancia-na-educacao-infantil-nao . Acessado em 08 out de 2020.
BRASIL, Ministério da Educação e do Desporto. Secretaria de Educação Fundamental. Base Nacional Comum Curricular – A educação é a base. A etapa da Educação Infantil. p.35-53. 2017.
FOCHI, Paulo Sérgio. A documentação pedagógica como estratégia para a construção do conhecimento praxiológico: o caso do Observatório da Cultura Infantil. Orientadora Mônica Apezzato Pinazza. São Paulo. 2019.
FOCHI, Paulo. A Investigação das crianças e dos professores na Educação Infantil. PRIMEIRA JORNADA NACIONAL DE EDUCAÇÃO INFANTIL – Infâncias na escola: A escuta das crianças e a educação da sensibilidade. Diálogos sobre cotidiano, protagonismo e linguagens. Vincular Consultoria. Passo Fundo. Set. 2020. Acesso em 26 set. 2020. Disponível em: acesso privado.
FORMOSINHO, Júlia Oliveira. A Formação em contexto: a mediação do desenvolvimento profissional praxiológico. Pedagogias das infâncias, crianças e docências. Org. CANCIAN, GALLINA et al. UFSM. Centro de Educação, Unidade de Educação Infantil Ipê Amarelo. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Básica. 2016.
LABORATÓRIO DE FORMAÇÃO E ESTUDOS EM INFÂNCIA. LABFORMA. UFPel. II Ciclo de Debates: Outro tempo, outra escola de educação infantil pós-pandemia. Acesso em jun.-ago. 2020. Disponível em https://www.youtube.com/channel/UC2xptvn9pD-MHXRYG6p0Dsw
SECRETARIA MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO E DESPORTO. SMED. Propostas de atividades não-presenciais – Rede municipal de Pelotas/ 2020. Pelotas. 2020.
TRABALHADORES da educação privada enfrentam dificuldades durante a pandemia. Adufpel. ANDES. Acesso em 08 out de 2020. Disponível em http://www.adufpel.org.br/site/noticias/trabalhadores-da-educao-privada-enfrentam-dificuldades-durante-a-pandemia .


Disponível em: https://youtu.be/R5J0rdbFHhw